sábado, 26 de setembro de 2009

Das ist Freiheit!

O que é a liberdade?
Imagine-se imergido(a) nos mais diversos fetiches, seguidos de pura luxúria voluptuosa inexplicável, onde os prazeres e a carne são apenas um pretexto, e o seu gemer é tão alto que chega à iminência do frenesi. Seria este o momento mais feliz de sua vida? Seria isto a liberdade?
Agora tente idealizar qual seria o pior. Tente imaginar ser exprobrada(o) pelo próprio Deus.

Eu mesmo não posso recordar de nada além do que pude ver. E o que eu pude ver, recuso dizer que foi demais para registrar tais coisas sobre a pobre mulher, Ofélia, que nunca teve a suave oportunidade de gozar de um momento feliz. Talvez em sonhos, talvez ao lado de ninguém. Mas a infelicidade caminha ao lado dela, mesmo sem a própria vontade. Talvez fosse destino, ou quem sabe ela só gostasse da companhia de Ofélia. Eu queria, mas estou sempre ocupado demais, carregando outras almas infelizes comigo... Tentando fazer um papel útil para meu Supremo. Confesso que é cansativo. Mas voltando ao nosso assunto, conheço bem a história da nossa pobre menina. Mas esse dia foi especial.
Ela acordara sossegada do brando descanso. Seu semblante era de paz, com olhos cinzentos e vívidos como seu respirar e cabelos negros. Tão longos. E tão branca era ela... Não tinha uma estatura tão avantajada, se me permite articular. Suas pestanas pesavam do longo sono. Espreitou pelo canto do olho o recinto – não era esta a sua casa. No entanto, nada soberbo. Paredes descoloridas, um modesto guarda-roupa com algumas gavetas entreabertas, se gosta de delineies. Um criado-mudo posto ao lado da cama e uma luz que de nada servia. E uma porta. Tirou a cabeça do macio travesseiro para ver as horas, no tosco relógio da parede; já se pusera a lua em seu canto.
Levantou-se. Andou até a porta, girou a maçaneta. Por trás dela, nada além de neblina. Seus passos eram cada vez mais estreitos, seu corpo pesava como chumbo. Foi até a ponte... O brilho da lua crescente iluminava sua face banhada de lágrimas, que percorriam suas bochechas até pingarem no seu crucifixo. A floresta ao seu redor era cada vez mais sombria, e o ervaçal parecia se erguer sobre seus pés. Sua fé em Deus ainda estaria de pé? Nem ela mesma conseguia estar de pé aquele momento. Tanta esperança não revelada, tanta dor, tanta angústia.
Sentiu seus pulsos pesarem. Sentiu um pentagrama desenhar-se, bem delineado no braço direito, ressaltando bem suas curvas. Em seguida, o braço esquerdo... – O que aconteceu, Senhor? – Gritou, com voz rouca e fraca. – Seria este um castigo? Dar-te-á minha vida, se hei de me condenar. Minha vida repleta de absolutamente nada além de nada...
Por fim, chegou. Agarrou-se no mainel da ponte e ajoelhou-se. O cheiro de terra molhada, a neblina da brisa gelada da madrugada, o frio que arrepiava nas badaladas da meia-noite, o calor ao sol da tarde, a convulsão próspera ao ver o alvorecer... Esta sinestesia não era mais parte do seu universo. E toda vida pútrida daquela floresta parecia se manifestar. Não vivia. Deus deu as costas para Ofélia. Verteu uma lágrima sentida graciosamente na lagoa negra debaixo da ponte, que acordou as águas. A lágrima não se propagou.
Beijou sua cruz com seus lábios vermelhos, lascivos pelo sangue, e segurou-o em suas mãos, frias como o corpo de uma espada, com uma força tão exorbitante que nem seu próprio Deus imaginara. Olhou para o alto, e não via nada. Nada além de um céu repleto de corvos melancólicos. Nada restara além da aflição.
– Fale comigo! Fale comigo! Por que eu, Senhor? Logo eu? Responde o motivo de tal insanidade. Não sou digna de piedade, mas não mereço ser vítima da tua fúria. Responde se Tu podes tal violência fazer. Minh’alma é Tua, por que carregar sobre mim tanta revolta?
– Vede-te: ajoelhada no próprio arrependimento. Filha de Lilith, tu és pecadora nata. Mirrados sejam teus olhos, eternamente surrados pela própria vida. Tu não tens minha piedade; de certo, muito menos minha bênção. Chegou sua hora, Ofélia. E em tua alma, mesmo ordenada pela tua vontade, não posso tocar, pois ela não mais pertence a mim. De contínuo, tua alma pertence a quem te pertence, e o que te resta é apenas recolher-se à sua insignificância.
Abri meus braços para ela, e então, eu a levei no meu ombro direito até a eternidade. Muda e fria, carregando o cheiro da morte e estilhaços de sofrimento consigo. Ela levou apenas um punhado do que restou dela.
Mas ela, enfim, entendeu o que é a liberdade.

4 comentários:

  1. Muito bem escrito, história envolvente e original. Seria a liberdade de Ofélia libertar-se de sua condição corpórea? Isso é literatura: a multissignificação. Tenho certeza que os próximos que lerem poderão interpretar de outras maneiras. Por favor, nunca pare de escrever...

    Deixo aqui uma citação da Clarice Lispector que seu texto me lembrou: "Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome..."

    Beijos.

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  2. Adorei o texto, as imagens dele. Como sempre, gosto muito do que você escreve, isso talvez torne-me suspeita. Enfim, reforço o apelo para que não pare de escrever, nunca. <3

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  3. Totalmente envolvente, detalhista; muitas e muitas imagens. Parabéns, eu adorei mesmo! <3

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