sábado, 24 de outubro de 2009

Mis-C-ute!

Quanto tempo que eu não escutava essa música!
Minha amiga disse, em 2008, que lembrava de mim quando escutava. Mas isso foi há muito tempo. Hoje, eu estava organizando meus favoritos e achei esse vídeo. Não me foi familiar de primeira, mas reconheci depois que vi o vídeo. Reviver o passado é sempre bom!
Um aviso: como vocês podem ver, não é mais uma miscelânea apenas de contos. É uma miscelânea cultural, com músicas que eu gosto, contos e poemas escritos por mim. Mas é a minha cultura particular. Espero que apreciem, comentem e usufruam.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Sem vida.

Eu vou fundo, eu me afundo,
Eu me escondo desse mundo.
No oceano eu me procuro,
E, acima de tudo, sou procurada.
Talvez não procurem a mim,
Mas procurem minha vida.

Eu vou até a superfície, e respiro.
Então, afundo mais uma vez,
Sem vontade,
Sem vida.
Dói, em mim, não ter o que sentir.
Será que perdi minha vida?

Eu não choro, não rio
Não sei e sei demais
E o que eu sei que não sei
Talvez seja o que eu deveria saber.
Será? Será?
Onde esqueci minha vida?

Eu escuto, chamam meu nome.
Estou tentando achar minha vida.
Sussurram no meu ouvido o que eu não posso ouvir
E me forçam a nadar.
Só posso nadar, e respirar...
Eu subo à superfície e não vejo ninguém.

Eu não sinto nada, sou uma sinestesia.
Eu amo por não ter mais a quem amar,
Sem ter a quem ter.
Não sou, mas vivo.
Eu vivo... Sem vida.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Quarto 6.

Sentamo-nos na mesa do lado esquerdo do bar. Era escuro, com cadeiras vermelhas cobertas de couro e pouca luz. Queríamos um lugar adequado para uma conversa mais reservada, talvez. Pedimos uma rodada de cerveja, nada mais. Alguns se esqueceram de beber. Que desperdício...
– Então, quem vai começar a falar? – Yan indagou, frenético. – O bonitão ali. Qual seu nome?
– Adam.
– Então, você começa. – Continuou Yan.
– Eu sou um pouco tímido...
– Todos nós somos – respondeu Yan – e por isso estamos aqui.
– Tudo bem, eu começo. Meu nome é Adam, e eu apenas resolvi me mudar. Minha auto-estima estava baixa, salário também, sem amigos e poucas mulheres. Eu precisava recomeçar minha vida. Viver naquele apartamento minúsculo estava me deixando insano. Nem mais, nem menos, uma cidade pequena estaria ótima. Quanto menor, menos pessoas. Menos pessoas, mais amigos. Se vocês não estiverem entendendo minhas idéias, podem falar.
– Estamos, Adam – Yan respondeu por todos. – Continue.
– Ótimo.
O famoso momento do silêncio coletivo.
– Bem, prosseguindo. Arrumei minhas malas, separei todos os meus bens materiais e deixei o destino tomar conta de mim. Como? Google. A resposta pra tudo!
Todos da mesa riram. Adam era um menino extrovertido, com sotaque de nordestino arretado e muito inteligente. Porém era realmente inerme, como citara anteriormente. Até seu sorriso do canto da boca dizia o mesmo. Naquele encontro de anti-sociais ele se sentia melhor para falar, se abrir; mas ainda restava um pouco de receio. Tomou um gole da cerveja.
– E fiz uma pesquisa minuciosa sobre as menores cidades do Brasil. Apaixonei-me por esta. Morei a vida inteira no nordeste, estava mais do que na hora de conhecer outras coisas.
– E foi de imediato? – Perguntou Marie.
– Não exatamente. Ainda tive tempo para me decidir, procurar a casa... Enquanto isso, continuei no meu trabalho de miserável. Não é tão fácil como aparenta ser. Continuando. Vim pra cá, consegui um emprego razoável e estou tentando me socializar. Agora passo a vez para minha direita. Apresente-se.
– Me chamo Yan. Sempre morei nesta cidade e freqüento esse bar. Sou conhecedor nato de literatura e vagabundo de primeira classe. Quem disse que saber dá dinheiro estava muito enganado...
Todos riram outra vez. Yan tomou um gole da cerveja.
– Perdi minha mãe quando tinha nove anos, e meu pai um ano depois. Meus avós já haviam morrido e restou apenas minha irmã, que faleceu também aos dezoito anos de idade. Não fui criado com ninguém, não estudei em boas escolas. Aprendi a ler sozinho e desde então sou viciado na gramática. Agora passo a vez para minha direita.
– Meu nome é Marie. Igualmente perdi minha mãe aos nove anos. Ela se suicidou. Era uma mulher depressiva, visto que meu pai sempre fora alcoólatra. Meu pai faleceu quando eu já havia completado dezoito anos. Estudei muito, estava cursando direito e trabalhando num emprego de salário mínimo. No entanto, meu pai não fez tanta falta na minha vida, já que estava sempre bebendo. E neste mesmo bar. Foi numa quarta-feira da semana retrasada que eu passei na frente desse bar, que antes eu evitava freqüentar por conta do meu pai, que eu vi o anúncio “socializando”. Tomei-o em minhas mãos e li. Inscrevi-me. Passo para minha direita.
Ela tomou um gole da cerveja e dirigiu o olhar à Sophia.
– Me chamo Sophia, e fui adotada. Morei no Rio de Janeiro um tempo e vim pra essa cidade pequena há pouco tempo. Também tenho o sotaque engraçado, Adam, mas o meu é carioca.
Ele sorriu. Ela bebeu um gole da cerveja.
– Enfim, vim pelo mesmo motivo que Adam. Sem amigos, emprego humilde. Só estou tentando fazer amigos. Você agora. É o último.
– Sou Damien. Meus amigos, que são poucos, acham que eu preciso estar num outro ambiente. Eu vivo em um apartamento sem luz, também vagabundo de primeira classe. Vivo do dinheiro dos outros. Acabei.
Eu estava um tanto nervoso para falar, confesso. E falei nada mais do que a verdade, porém omitindo alguns fatos. Ninguém precisa falar tudo. Não tomei um gole da cerveja.
– O que vamos fazer agora? – Perguntou Adam.
– Relancim! – Respondeu Sophia.
Ela puxou uma caixa de baralho da bolsa avantajada e colocou em cima da mesa.
– Você estava preparada para isso? – Perguntou Yan.
– Não. Pra falar a verdade, jogo baralho em todos os lugares. Sou uma viciada.
Ela mesma distribuiu as cartas. Seus dedos deslizavam suavemente pelo baralho, e claro, Yan não deixou de reparar suas unhas pintadas de preto. Que mão pequena. Ele imaginou essa mão tocando seu rosto. Tão suave... Seria ela uma gótica disfarçada? Não tinha reparado no batom escuro. E que pele alva! Com bochechas rosadas e olhos azuis. Mas tão azuis. E cabelos negros.
– Prontos?
– Prontos.
Marie reparou no seu jogo. Que péssimo. Duas cartas do mesmo nipe, duas consecutivas e cinco completamente diferentes. Olhou para as costas das cartas das outras mãos. Os jogadores pareciam animados.
– Começo? – Ela disse.
– Sim, Marie, vá em frente – disse Adam.
Ela puxou uma carta do bolo e viu um três de copas. Droga! Jogou a primeira carta.
– Não quero – disse. – Você, Sophia.
Sophia retirou outra carta do bolo. Um ás de espadas. Já fizera um jogo. Quando ela olhou para Yan, tudo começou a girar... A tontura subiu à sua cabeça.
Jogaram, jogaram e jogaram a noite inteira. Riram, conversaram. Todos terminaram as cervejas, menos eu. Quem diria!
Depois que todos já estavam bêbados, Marie jogou a cabeça para trás e adormeceu. Adam não hesitou em olhar seu crucifixo. Ele podia notar ele subir e descer junto com seu colo, no movimento suave da respiração. Que cabelos dourados... Quis tocar neles. Mas ele estava longe.
– Vai lá, Adam, acorda ela – eu disse. Sabia que ele queria.
– Vai ver ela não gosta. É melhor não.
– Ela está bêbada, idiota.
Adam olhou mais uma vez para a desacordada e pediu licença à Sophia. Cutucou-a uma, duas, três vezes. Marie não abriu os olhos.
– Acorda – ele sussurrou no seu ouvido. – Acorda.
Ela fitou-o estranho. Examinou o lugar.
– Se quiser, eu posso pedir um quarto. Adam pode te levar – eu disse, novamente.
– Sim, por favor.
Ele sabia o que eu estava fazendo. Sei que ele sabia. E todos os outros também. E eles estavam fazendo justo o que eu queria, porém descobriram cedo demais. Além disso, estavam todos bêbados. Brinquei muito esta noite.
– Garçom, por favor.
Eu puxei-o pelo ombro e falei-o no ouvido. Ele acenou positivamente com a cabeça e guiou os pombinhos suicidas até o quarto. Nessa hora, Sophia e Yan saíram juntos do bar. Sozinho fiquei, e assim, apreciei melhor o espetáculo. Subiram as escadas e encontraram um corredor. Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Quarto seis.
Adam colocou-a na cama. Ela estava sonolenta há um minuto, e agora, convulsa. A cerveja, talvez. Muito estranho alguém ficar bêbado com um copo de cerveja; mas não era gosto de cerveja.
Seus lábios eram tão rosados... E inchados. Eu, de onde eu estava, consegui sentir o cheiro dela. Muito forte, talvez até melhor que o de Sophia.
Ele sentou do seu lado e passou o braço por cima dela, observando-a. De repente tudo começou a girar.
O encabulado tonto aproximou-se de seus lábios. A loira encarou-o e não se conteve. Beijou-o com tanto desejo que eu pude sentir. Adam deslizava as mãos por sua cintura, como se já a conhecesse há muito, como se já fossem íntimos. Um “sarro”. Dessa vez, pedi uma taça caprichada de vinho; dessa vez, sem a mistura de muscimol e cetamina. Eu não podia perder esse episódio.
As unhas de Marie perfuravam a nuca de Adam. Ele estava se apressando demais, e ela não gosta de apressados. Mas ela estava bêbada...
Ele quase subiu a mão ao seu seio, mas ela conseguiu frear.
- O que porra você está fazendo?
- Você quis um quarto, o que achou que iríamos fazer?
- Eu estou bêbada, você também está.
- Estou te dizendo, aquilo não era cerveja. Tenho certeza.
- E o que era? Droga?
- Tem alguma coisa com aquele Damien. Eu tenho certeza.
- Você não tem certeza de nada, está bêbado, como eu.
- Marie, cala a boca! Eu não estou bêbado, ele que quer que eu esteja!
- Deixa de falar merda, Adam!
Marie avistou uma arma, que estava coincidentemente posta no criado-mudo. Não hesitou em pegá-la.
- Eu tenho uma arma, agora.
- Espera, calma. O que eu fiz?
- Me irritou. Ainda está me irritando.
- Olha o que eu to dizendo, é o Damien...
- Cala a boca, Adam!
Agora é a melhor parte. Ela está olhando para a arma. Agora olha pro chão. Caiu na realidade. Ela realmente o matou. A polícia logo chegaria. O quarto não tem janelas, e perceberiam se ela saísse pela porta. É, agora ela se matou.
Não vou perder meu tempo procurando os outros dois, só Deus sabe o que aconteceu com eles. Espere, Deus ou Eu? Livre-arbítrio, querido amigo.

sábado, 26 de setembro de 2009

Das ist Freiheit!

O que é a liberdade?
Imagine-se imergido(a) nos mais diversos fetiches, seguidos de pura luxúria voluptuosa inexplicável, onde os prazeres e a carne são apenas um pretexto, e o seu gemer é tão alto que chega à iminência do frenesi. Seria este o momento mais feliz de sua vida? Seria isto a liberdade?
Agora tente idealizar qual seria o pior. Tente imaginar ser exprobrada(o) pelo próprio Deus.

Eu mesmo não posso recordar de nada além do que pude ver. E o que eu pude ver, recuso dizer que foi demais para registrar tais coisas sobre a pobre mulher, Ofélia, que nunca teve a suave oportunidade de gozar de um momento feliz. Talvez em sonhos, talvez ao lado de ninguém. Mas a infelicidade caminha ao lado dela, mesmo sem a própria vontade. Talvez fosse destino, ou quem sabe ela só gostasse da companhia de Ofélia. Eu queria, mas estou sempre ocupado demais, carregando outras almas infelizes comigo... Tentando fazer um papel útil para meu Supremo. Confesso que é cansativo. Mas voltando ao nosso assunto, conheço bem a história da nossa pobre menina. Mas esse dia foi especial.
Ela acordara sossegada do brando descanso. Seu semblante era de paz, com olhos cinzentos e vívidos como seu respirar e cabelos negros. Tão longos. E tão branca era ela... Não tinha uma estatura tão avantajada, se me permite articular. Suas pestanas pesavam do longo sono. Espreitou pelo canto do olho o recinto – não era esta a sua casa. No entanto, nada soberbo. Paredes descoloridas, um modesto guarda-roupa com algumas gavetas entreabertas, se gosta de delineies. Um criado-mudo posto ao lado da cama e uma luz que de nada servia. E uma porta. Tirou a cabeça do macio travesseiro para ver as horas, no tosco relógio da parede; já se pusera a lua em seu canto.
Levantou-se. Andou até a porta, girou a maçaneta. Por trás dela, nada além de neblina. Seus passos eram cada vez mais estreitos, seu corpo pesava como chumbo. Foi até a ponte... O brilho da lua crescente iluminava sua face banhada de lágrimas, que percorriam suas bochechas até pingarem no seu crucifixo. A floresta ao seu redor era cada vez mais sombria, e o ervaçal parecia se erguer sobre seus pés. Sua fé em Deus ainda estaria de pé? Nem ela mesma conseguia estar de pé aquele momento. Tanta esperança não revelada, tanta dor, tanta angústia.
Sentiu seus pulsos pesarem. Sentiu um pentagrama desenhar-se, bem delineado no braço direito, ressaltando bem suas curvas. Em seguida, o braço esquerdo... – O que aconteceu, Senhor? – Gritou, com voz rouca e fraca. – Seria este um castigo? Dar-te-á minha vida, se hei de me condenar. Minha vida repleta de absolutamente nada além de nada...
Por fim, chegou. Agarrou-se no mainel da ponte e ajoelhou-se. O cheiro de terra molhada, a neblina da brisa gelada da madrugada, o frio que arrepiava nas badaladas da meia-noite, o calor ao sol da tarde, a convulsão próspera ao ver o alvorecer... Esta sinestesia não era mais parte do seu universo. E toda vida pútrida daquela floresta parecia se manifestar. Não vivia. Deus deu as costas para Ofélia. Verteu uma lágrima sentida graciosamente na lagoa negra debaixo da ponte, que acordou as águas. A lágrima não se propagou.
Beijou sua cruz com seus lábios vermelhos, lascivos pelo sangue, e segurou-o em suas mãos, frias como o corpo de uma espada, com uma força tão exorbitante que nem seu próprio Deus imaginara. Olhou para o alto, e não via nada. Nada além de um céu repleto de corvos melancólicos. Nada restara além da aflição.
– Fale comigo! Fale comigo! Por que eu, Senhor? Logo eu? Responde o motivo de tal insanidade. Não sou digna de piedade, mas não mereço ser vítima da tua fúria. Responde se Tu podes tal violência fazer. Minh’alma é Tua, por que carregar sobre mim tanta revolta?
– Vede-te: ajoelhada no próprio arrependimento. Filha de Lilith, tu és pecadora nata. Mirrados sejam teus olhos, eternamente surrados pela própria vida. Tu não tens minha piedade; de certo, muito menos minha bênção. Chegou sua hora, Ofélia. E em tua alma, mesmo ordenada pela tua vontade, não posso tocar, pois ela não mais pertence a mim. De contínuo, tua alma pertence a quem te pertence, e o que te resta é apenas recolher-se à sua insignificância.
Abri meus braços para ela, e então, eu a levei no meu ombro direito até a eternidade. Muda e fria, carregando o cheiro da morte e estilhaços de sofrimento consigo. Ela levou apenas um punhado do que restou dela.
Mas ela, enfim, entendeu o que é a liberdade.