Sentamo-nos na mesa do lado esquerdo do bar. Era escuro, com cadeiras vermelhas cobertas de couro e pouca luz. Queríamos um lugar adequado para uma conversa mais reservada, talvez. Pedimos uma rodada de cerveja, nada mais. Alguns se esqueceram de beber. Que desperdício...
– Então, quem vai começar a falar? – Yan indagou, frenético. – O bonitão ali. Qual seu nome?
– Adam.
– Então, você começa. – Continuou Yan.
– Eu sou um pouco tímido...
– Todos nós somos – respondeu Yan – e por isso estamos aqui.
– Tudo bem, eu começo. Meu nome é Adam, e eu apenas resolvi me mudar. Minha auto-estima estava baixa, salário também, sem amigos e poucas mulheres. Eu precisava recomeçar minha vida. Viver naquele apartamento minúsculo estava me deixando insano. Nem mais, nem menos, uma cidade pequena estaria ótima. Quanto menor, menos pessoas. Menos pessoas, mais amigos. Se vocês não estiverem entendendo minhas idéias, podem falar.
– Estamos, Adam – Yan respondeu por todos. – Continue.
– Ótimo.
O famoso momento do silêncio coletivo.
– Bem, prosseguindo. Arrumei minhas malas, separei todos os meus bens materiais e deixei o destino tomar conta de mim. Como? Google. A resposta pra tudo!
Todos da mesa riram. Adam era um menino extrovertido, com sotaque de nordestino arretado e muito inteligente. Porém era realmente inerme, como citara anteriormente. Até seu sorriso do canto da boca dizia o mesmo. Naquele encontro de anti-sociais ele se sentia melhor para falar, se abrir; mas ainda restava um pouco de receio. Tomou um gole da cerveja.
– E fiz uma pesquisa minuciosa sobre as menores cidades do Brasil. Apaixonei-me por esta. Morei a vida inteira no nordeste, estava mais do que na hora de conhecer outras coisas.
– E foi de imediato? – Perguntou Marie.
– Não exatamente. Ainda tive tempo para me decidir, procurar a casa... Enquanto isso, continuei no meu trabalho de miserável. Não é tão fácil como aparenta ser. Continuando. Vim pra cá, consegui um emprego razoável e estou tentando me socializar. Agora passo a vez para minha direita. Apresente-se.
– Me chamo Yan. Sempre morei nesta cidade e freqüento esse bar. Sou conhecedor nato de literatura e vagabundo de primeira classe. Quem disse que saber dá dinheiro estava muito enganado...
Todos riram outra vez. Yan tomou um gole da cerveja.
– Perdi minha mãe quando tinha nove anos, e meu pai um ano depois. Meus avós já haviam morrido e restou apenas minha irmã, que faleceu também aos dezoito anos de idade. Não fui criado com ninguém, não estudei em boas escolas. Aprendi a ler sozinho e desde então sou viciado na gramática. Agora passo a vez para minha direita.
– Meu nome é Marie. Igualmente perdi minha mãe aos nove anos. Ela se suicidou. Era uma mulher depressiva, visto que meu pai sempre fora alcoólatra. Meu pai faleceu quando eu já havia completado dezoito anos. Estudei muito, estava cursando direito e trabalhando num emprego de salário mínimo. No entanto, meu pai não fez tanta falta na minha vida, já que estava sempre bebendo. E neste mesmo bar. Foi numa quarta-feira da semana retrasada que eu passei na frente desse bar, que antes eu evitava freqüentar por conta do meu pai, que eu vi o anúncio “socializando”. Tomei-o em minhas mãos e li. Inscrevi-me. Passo para minha direita.
Ela tomou um gole da cerveja e dirigiu o olhar à Sophia.
– Me chamo Sophia, e fui adotada. Morei no Rio de Janeiro um tempo e vim pra essa cidade pequena há pouco tempo. Também tenho o sotaque engraçado, Adam, mas o meu é carioca.
Ele sorriu. Ela bebeu um gole da cerveja.
– Enfim, vim pelo mesmo motivo que Adam. Sem amigos, emprego humilde. Só estou tentando fazer amigos. Você agora. É o último.
– Sou Damien. Meus amigos, que são poucos, acham que eu preciso estar num outro ambiente. Eu vivo em um apartamento sem luz, também vagabundo de primeira classe. Vivo do dinheiro dos outros. Acabei.
Eu estava um tanto nervoso para falar, confesso. E falei nada mais do que a verdade, porém omitindo alguns fatos. Ninguém precisa falar tudo. Não tomei um gole da cerveja.
– O que vamos fazer agora? – Perguntou Adam.
– Relancim! – Respondeu Sophia.
Ela puxou uma caixa de baralho da bolsa avantajada e colocou em cima da mesa.
– Você estava preparada para isso? – Perguntou Yan.
– Não. Pra falar a verdade, jogo baralho em todos os lugares. Sou uma viciada.
Ela mesma distribuiu as cartas. Seus dedos deslizavam suavemente pelo baralho, e claro, Yan não deixou de reparar suas unhas pintadas de preto. Que mão pequena. Ele imaginou essa mão tocando seu rosto. Tão suave... Seria ela uma gótica disfarçada? Não tinha reparado no batom escuro. E que pele alva! Com bochechas rosadas e olhos azuis. Mas tão azuis. E cabelos negros.
– Prontos?
– Prontos.
Marie reparou no seu jogo. Que péssimo. Duas cartas do mesmo nipe, duas consecutivas e cinco completamente diferentes. Olhou para as costas das cartas das outras mãos. Os jogadores pareciam animados.
– Começo? – Ela disse.
– Sim, Marie, vá em frente – disse Adam.
Ela puxou uma carta do bolo e viu um três de copas. Droga! Jogou a primeira carta.
– Não quero – disse. – Você, Sophia.
Sophia retirou outra carta do bolo. Um ás de espadas. Já fizera um jogo. Quando ela olhou para Yan, tudo começou a girar... A tontura subiu à sua cabeça.
Jogaram, jogaram e jogaram a noite inteira. Riram, conversaram. Todos terminaram as cervejas, menos eu. Quem diria!
Depois que todos já estavam bêbados, Marie jogou a cabeça para trás e adormeceu. Adam não hesitou em olhar seu crucifixo. Ele podia notar ele subir e descer junto com seu colo, no movimento suave da respiração. Que cabelos dourados... Quis tocar neles. Mas ele estava longe.
– Vai lá, Adam, acorda ela – eu disse. Sabia que ele queria.
– Vai ver ela não gosta. É melhor não.
– Ela está bêbada, idiota.
Adam olhou mais uma vez para a desacordada e pediu licença à Sophia. Cutucou-a uma, duas, três vezes. Marie não abriu os olhos.
– Acorda – ele sussurrou no seu ouvido. – Acorda.
Ela fitou-o estranho. Examinou o lugar.
– Se quiser, eu posso pedir um quarto. Adam pode te levar – eu disse, novamente.
– Sim, por favor.
Ele sabia o que eu estava fazendo. Sei que ele sabia. E todos os outros também. E eles estavam fazendo justo o que eu queria, porém descobriram cedo demais. Além disso, estavam todos bêbados. Brinquei muito esta noite.
– Garçom, por favor.
Eu puxei-o pelo ombro e falei-o no ouvido. Ele acenou positivamente com a cabeça e guiou os pombinhos suicidas até o quarto. Nessa hora, Sophia e Yan saíram juntos do bar. Sozinho fiquei, e assim, apreciei melhor o espetáculo. Subiram as escadas e encontraram um corredor. Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Quarto seis.
Adam colocou-a na cama. Ela estava sonolenta há um minuto, e agora, convulsa. A cerveja, talvez. Muito estranho alguém ficar bêbado com um copo de cerveja; mas não era gosto de cerveja.
Seus lábios eram tão rosados... E inchados. Eu, de onde eu estava, consegui sentir o cheiro dela. Muito forte, talvez até melhor que o de Sophia.
Ele sentou do seu lado e passou o braço por cima dela, observando-a. De repente tudo começou a girar.
O encabulado tonto aproximou-se de seus lábios. A loira encarou-o e não se conteve. Beijou-o com tanto desejo que eu pude sentir. Adam deslizava as mãos por sua cintura, como se já a conhecesse há muito, como se já fossem íntimos. Um “sarro”. Dessa vez, pedi uma taça caprichada de vinho; dessa vez, sem a mistura de muscimol e cetamina. Eu não podia perder esse episódio.
As unhas de Marie perfuravam a nuca de Adam. Ele estava se apressando demais, e ela não gosta de apressados. Mas ela estava bêbada...
Ele quase subiu a mão ao seu seio, mas ela conseguiu frear.
- O que porra você está fazendo?
- Você quis um quarto, o que achou que iríamos fazer?
- Eu estou bêbada, você também está.
- Estou te dizendo, aquilo não era cerveja. Tenho certeza.
- E o que era? Droga?
- Tem alguma coisa com aquele Damien. Eu tenho certeza.
- Você não tem certeza de nada, está bêbado, como eu.
- Marie, cala a boca! Eu não estou bêbado, ele que quer que eu esteja!
- Deixa de falar merda, Adam!
Marie avistou uma arma, que estava coincidentemente posta no criado-mudo. Não hesitou em pegá-la.
- Eu tenho uma arma, agora.
- Espera, calma. O que eu fiz?
- Me irritou. Ainda está me irritando.
- Olha o que eu to dizendo, é o Damien...
- Cala a boca, Adam!
Agora é a melhor parte. Ela está olhando para a arma. Agora olha pro chão. Caiu na realidade. Ela realmente o matou. A polícia logo chegaria. O quarto não tem janelas, e perceberiam se ela saísse pela porta. É, agora ela se matou.
Não vou perder meu tempo procurando os outros dois, só Deus sabe o que aconteceu com eles. Espere, Deus ou Eu? Livre-arbítrio, querido amigo.